quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Domestique-se

tudo novo, quase tudo, organize-se e terá o mundo aos seus pés
conhecer, ter prazer, viver
faça bem feito, desse jeito
regras da boa convivência, conveniências
novo, novo, bem-vindo ao novo
regras de etiqueta, corta essa, etiqueta
incomoda, como incomoda
silencie nas horas certas, ou sempre, é mais fácil
difícil é falar, ou falar e falhar, melhor não calar
evite isso, tire aquilo, precisa mesmo renovar
precisa se adequar
seja fluida, conveniente, comportada, sentada, calada, educada...
domesticada.

Não seja!

Nonsense,
sem senso de humor
rumores de nada
sopros invertidos, de dentro pra fora
só o lado de fora respira
nada, nada, nada de niilista
nem um pouco marxista,
nada, nada, nada de bom senso
tudo culpa do incenso que queimou
a fumaça foi fugindo
antes que eu aprendesse a domá-la
pra quê?
dominar não é pretensão
pressão
prisão
porção de eus
meus, seus,
maus,
muito, muito maus
que nem o lobo
que as crianças deixam de crer que existe
mas ele continua ali, para todo o sempre,
atrás da segunda árvore do bosque
aguardando o momento certo de atacar
e são vários deles
milhares, um a cada cinco árvores
ou menos?
menos, menos, mais realidade para os olhos
essa ilusão de visão
alucinação
eu vejo(?)
o padrão
não desejo, ver o que vejo,
ou seja: não seja.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

ressaca V

Elas vieram rápidas
Já havia algum tempo as aguardava...
Ansiosamente, para coloca-las em ordem
Ficam a maior parte do tempo perdidas, soltas
Perambulando
Já até armei uma arapuca com o intuito de captura-las
De nada adiantou
Sempre soube
No momento certo,
Deixei-as à vontade,
Organizariam-se a ponto de deixarem de existir
Dentro.
Tomaram forma, vida
Expressam-se sós e unidas
E conseguem manter o sentimento
A angústia, ansiedade
Ausênsia.

Pós-ressaca IV / Pré-ressaca V

Quando se está apaixonado enxerga-se diferente
Os cheiros são mais cheirosos
E os pensamentos indecentes

Quando se está apaixonado o tempo fica mais curto
A vida ganha sentido
Vê-se beleza em tudo

Quando se está apaixonado o chão fica mais fundo
Caminha-se em plumas, em nuvens
Larga-se ao lado o escudo

Defesas não mais se valem
O peito abre-se ao mundo
Antes que o veneno se espalhe
Mergulha-se mais profundo

No âmago da criatura
Um poço de prazer
Esquecida daquele dia
Que prometeu não mais sofrer

nos CLASSIFICADOS...

PROCURA-SE

Alguém pra dividir os melhores momentos (e os piores, se necessário). Que saiba dar valor a coisas simples mas não ignore as sofisticadas. Que me conforte quando eu me sentir insegura; e me ceda o ombro, se necessário, nesses momentos. Que chore quando precisar, para eu saber que não sou a única nesse mundo. Que concorde comigo ao achar que dormirmos juntos é um dos maiores prazeres da vida. Que compreenda meus dias de TPM, e se mantenha ali presente fisicamente, mesmo que ausente psicologicamente. Que queira conhecer o mundo ao meu lado; e que, não sendo possível, sonhemos juntos com isso. Que me demonstre afeto em público e em particular. Que tenhamos gostos em comum, todavia, outros diferentes para podermos acrescentar informações um ao outro. Que seja sincero, mesmo quando possa me magoar com isso, pois dói mais descobrir que se acreditou numa mentira. Que sinta ciúmes o suficiente para me fazer sentir prezada e que isso não se torne motivo para discussões diárias. Que seja altruísta de uma maneira geral. Que saiba tirar o melhor de tudo. Que brinque nas horas certas e mantenha seriedade nas horas necessárias. Que tenha sua própria vida, que respeite a minha e que saiba manter nossa vida a dois. Que respeite a natureza, incluindo os seres humanos. Que saiba me recriminar quando eu não estiver pensando ou agindo corretamente; mas que faça isso de maneira a me deixar livre para agir e decidir o que eu acho certo ou não. Que conheça meus defeitos e reconheça minhas qualidades. Que saiba respeitar meus limites e me ajude a avançar alguns. Que não tenha preconceitos e tendo-os: assuma-os, assumindo-os: tente eliminá-los. Que tenha paciência comigo, e saiba tolerar alguns impulsos. Que não prometa falsa fidelidade. E que, acima de tudo, me ame.

Só pra não jogar fora o platonismo.

Já estava me acostumando com aquela movimentação repentina ao meio-dia. Mas meio-dia em ponto mesmo.Até umas onze e meia algumas pessoas, simples transeuntes, passavam, olhavam, observavam, e se esvaiam, com o resto do dia. Mas ao meio-dia lá vinha dobrando a esquina, o coração apertava e subia dando um nó na garganta. Eu esperava dar meio-dia. Não me pergunte o porquê, olhava para o celular apagado, clicava no botão para a luz acender, só pra saber que horas eram. 11:59. Seria daqui a pouco, o coração começava a acelerar, contando os segundos. Por vezes se atrasava, acho que porque a hora de sair é que era meio-dia, e levava uns cinco ou seis minutos até chegar aqui e se encaminhar à sua refeição diária, rodeado por seus prováveis colegas de trabalho. Ele tinha um cabelo liso, mas tão liso que chego a duvidar se não deu relaxamento, é perfeitamente normal homens vaidosos fazerem isso atualmente, e pelo jeito de se vestir, acho que tem certa vaidade. Bem preto, um cabelo bem preto também, mas não creio que pintado, nunca cheguei muito perto mas me disseram que aparentava ser alguns anos mais velho que eu, provavelmente uns trinta anos ou quase. Andava como se jogando um pouco as pernas pra frente, mas delicadamente como se não tivesse ligando muito pro que acontece ao redor. 12:04. Fico olhando pra esquina, aquela pela qual ele cruza todos os dias. E vem caminhando na minha direção, conversando, fingindo nem saber minha existência, e então dobra de novo à minha frente. E olha, às vezes ressabiado, quando percebe que eu estou encarando, também, depois de ele olhar por tantos dias, eu resolvi entrar no jogo. Ainda ontem eu decidi encará-lo, me concentrei, esperei, e lá estava ele, dessa vez já descendo, nem o tinha visto subir. Mas fitei-o fixamente até onde consegui controlar meu riso, e ele correspondia meu olhar, meio acanhado acho, até que percebi no canto da sua boca um risinho querendo sair. A pilastra ficou entre nós e eu me abri em um sorriso tímido e malicioso.12:10. Dessa vez quem ganhou fui eu. Consegui controlar minha timidez e só ri depois que ele não podia mais me ver. Dez minutos já se passaram. A quantidade de transeuntes tem aumentado, gradativamente. E eu aguardo, ansiosamente. Será que ele já subiu e eu não vi? Mas tenho observado todos os grupinhos que passam, e ele não estava no meio de nenhum. Nem seus colegas passaram. Porque de tanto observa-lo, também já sei reconhecer quem anda com ele, 12:14 Acabou de passar. Entrou de costa na escada-rolante e ficou me olhando um pouco, mas eu tirei o rosto logo, fiquei com mais vergonha agora. Estava tão mergulhava em minhas divagações sobre ele que nem o percebi passando, reconheci primeiro um de seus colegas, um bem magro que anda sempre com uma jaqueta de um ícone de filmes japonês o qual não tenho certeza do nome agora. Procurei, procurei... quando já achava que ele viria com outras pessoas, porque isso acontece as vezes de ele vir acompanhado de uma ou duas outras pessoas de fora do seu grupinho. Lá estava ele, se apoiando nas borrachas da escada de costas e me olhando. Não sei desde quando a gente tem trocado esses breves instantes, mas tenho esperado diariamente o relógio registrar meio-dia. 12:42. Ele passou, foi embora e eu nem percebi, desceu a escada-rolante de frente pra mim, e eu não vi, estava de costas e dentro da salinha que me separa do lado exposto. Quando percebi ele já estava se virando e se encaminhando à esquina por onde passa todo dia, ao meio-dia. Meu personagem incorporado, sou simpática com algumas pessoas, “bom dia”, “obrigada”, “por nada”. O tempo passando, eu esperando ele passar. O tempo, não o rapaz, até hoje não sei seu nome. Também nem me importa, alguns metros é uma distância muito grande aqui. Eu vou ficando com fome. Bebo um copo d´água, arrumo algumas coisas, olho as horas novamente. Mais simpatia esbanjada. Coloco uma pulseira que faz uns barulhos agradáveis quando balançada, agradáveis até certo ponto, às vezes se tornam irritadiços. Fico em pé por um bom tempo, sem nada o que fazer além de observar os desatentos transeuntes, começo a brincar com a pulseira, com os círculos ondulados que fazem o tal barulho, batendo neles com a palma da mão direita, a esquerda suspensa logo acima dela, a sensação que ocorre nos meus dedos também é agradável, me distraio enquanto ouço esse som, divertido e irritadiço. Continuo olhando as pessoas passando pra lá e pra cá, quando olho por entre duas pilastras, um espaço que de onde estou aparenta ter uns três metros de distância, passando além delas reconheço um tecido claro florido, com florzinhas miúdas e distantes umas das outras, um tecido que assim de longe não me agradou, imagino que nem de perto iria me agradar, porém quem a estava usando era ele. Olhando na minha direção enquanto eu batia desleixadamente o pulso esquerdo na palma da mão direita. A pilastra de novo bloqueou nosso único contato. Parei momentaneamente imaginando o quanto aquela cena parecia patética, me observar enquanto eu ouvia o tilintar do metal. Ele continuou andando, agora sem olhar para onde eu estava, dessa vez era eu quem o observava, a camisa florida, a calça jeans. Observava até ele sumir por entre as portas automáticas da livraria, outra coisa que fazia todo dia, passar por aquelas portas que se abriam como num passe de mágica quando ele se aproximava. Depois disso eu só esperava vê-lo de novo muito mais longe do que mais cedo, pelo ângulo diagonal mais distante de onde eu estava, voltando, acho, para o resto da jornada de trabalho.13:51. À essa hora eu além de com fome já estava também com vontade de ir ao banheiro. Fiquei ali de pé durante alguns minutos, pensando mil coisas, mil e uma. Hoje parecia até que ele estava se escondendo de mim, só o via depois de reconhecer fisicamente todos os seus colegas. Tirou os óculos escuros logo quando saiu do sol, o perdi de vista por trás da pilastra, quando fui acha-lo estava escondido ao lado de um robusto colega seu. Passou e nem se deu conta de minha existência, singela. Tentei seguir seus passos pelo espelho, sumia, reaparecia, sumia, e foi embora, passou pela esquina como todos os dias, dez vezes por semana.

At JOB

O lugar era outro, as pessoas também, não com isso quero dizer que melhores, tampouco piores. Mas diferente, precisava disso,e já fazia algum tempo. Na verdade não exatamente “disso” não exatamente “esse lugar e essas pessoas”, mas precisava dessa mudança de ambiente... Por menor tempo que fosse. Era algo novo, completamente novo. Minhas atitudes que não mudam. Nunca. Ao menos até agora não, por mais que eu tente me controlar por algumas vezes, por que em certos lugares não se deve agir como somos. Não completamente. Temos que encobrir uns defeitos aqui, uns vícios de linguagens ali, um movimento mais brusco ou agressivo acolá... e por aí vai, tem de ir se bloqueando criando uma espécie de personagem, mas só ali, naquele curto espaço de tempo, e de espaço também, curtíssimo por sinal. Tão curto que às vezes faz com que eu me sinta um animalzinho enjaulado, à espera de visitantes para poder apresentar meu número. Até os animais enjaulados devem se sentir mais à vontade do que eu, eles pelo menos até onde se estudou e que eu saiba não pensam racionalmente, eles não sabem por que estão ali, nem o que estão fazendo ali. E eu sei, e não gosto do motivo. Desejava não ter de estar ali, e andava pra lá e pra cá, sabendo que poderia estar sendo observada, mas hoje em dia, quem não pensa isso, apenas por um segundo de sua vida? Tantas câmeras espalhadas por onde quer que se ande, que estranho seria divagar que não estamos sendo vigiados o tempo todo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

ressaca IV

já passou do prazo.

você errou e aqui não tem mamãe pra dizer "tenta de novo", é tudo ou agora ou nunca.

sem vidas extras, sem segunda chance,
sem nada.



acabou, mas foi tudo sua culpa.
já sabia que mentir era o mais fácil.

continua com essa "mania de sinceridade";
perdeu, adeus.


sem contratos, sem acordos.
desculpa pela educação, me adestraram assim.







e desapareceu no ar.