segunda-feira, 28 de abril de 2008

Só pra não jogar fora o platonismo.

Já estava me acostumando com aquela movimentação repentina ao meio-dia. Mas meio-dia em ponto mesmo.Até umas onze e meia algumas pessoas, simples transeuntes, passavam, olhavam, observavam, e se esvaiam, com o resto do dia. Mas ao meio-dia lá vinha dobrando a esquina, o coração apertava e subia dando um nó na garganta. Eu esperava dar meio-dia. Não me pergunte o porquê, olhava para o celular apagado, clicava no botão para a luz acender, só pra saber que horas eram. 11:59. Seria daqui a pouco, o coração começava a acelerar, contando os segundos. Por vezes se atrasava, acho que porque a hora de sair é que era meio-dia, e levava uns cinco ou seis minutos até chegar aqui e se encaminhar à sua refeição diária, rodeado por seus prováveis colegas de trabalho. Ele tinha um cabelo liso, mas tão liso que chego a duvidar se não deu relaxamento, é perfeitamente normal homens vaidosos fazerem isso atualmente, e pelo jeito de se vestir, acho que tem certa vaidade. Bem preto, um cabelo bem preto também, mas não creio que pintado, nunca cheguei muito perto mas me disseram que aparentava ser alguns anos mais velho que eu, provavelmente uns trinta anos ou quase. Andava como se jogando um pouco as pernas pra frente, mas delicadamente como se não tivesse ligando muito pro que acontece ao redor. 12:04. Fico olhando pra esquina, aquela pela qual ele cruza todos os dias. E vem caminhando na minha direção, conversando, fingindo nem saber minha existência, e então dobra de novo à minha frente. E olha, às vezes ressabiado, quando percebe que eu estou encarando, também, depois de ele olhar por tantos dias, eu resolvi entrar no jogo. Ainda ontem eu decidi encará-lo, me concentrei, esperei, e lá estava ele, dessa vez já descendo, nem o tinha visto subir. Mas fitei-o fixamente até onde consegui controlar meu riso, e ele correspondia meu olhar, meio acanhado acho, até que percebi no canto da sua boca um risinho querendo sair. A pilastra ficou entre nós e eu me abri em um sorriso tímido e malicioso.12:10. Dessa vez quem ganhou fui eu. Consegui controlar minha timidez e só ri depois que ele não podia mais me ver. Dez minutos já se passaram. A quantidade de transeuntes tem aumentado, gradativamente. E eu aguardo, ansiosamente. Será que ele já subiu e eu não vi? Mas tenho observado todos os grupinhos que passam, e ele não estava no meio de nenhum. Nem seus colegas passaram. Porque de tanto observa-lo, também já sei reconhecer quem anda com ele, 12:14 Acabou de passar. Entrou de costa na escada-rolante e ficou me olhando um pouco, mas eu tirei o rosto logo, fiquei com mais vergonha agora. Estava tão mergulhava em minhas divagações sobre ele que nem o percebi passando, reconheci primeiro um de seus colegas, um bem magro que anda sempre com uma jaqueta de um ícone de filmes japonês o qual não tenho certeza do nome agora. Procurei, procurei... quando já achava que ele viria com outras pessoas, porque isso acontece as vezes de ele vir acompanhado de uma ou duas outras pessoas de fora do seu grupinho. Lá estava ele, se apoiando nas borrachas da escada de costas e me olhando. Não sei desde quando a gente tem trocado esses breves instantes, mas tenho esperado diariamente o relógio registrar meio-dia. 12:42. Ele passou, foi embora e eu nem percebi, desceu a escada-rolante de frente pra mim, e eu não vi, estava de costas e dentro da salinha que me separa do lado exposto. Quando percebi ele já estava se virando e se encaminhando à esquina por onde passa todo dia, ao meio-dia. Meu personagem incorporado, sou simpática com algumas pessoas, “bom dia”, “obrigada”, “por nada”. O tempo passando, eu esperando ele passar. O tempo, não o rapaz, até hoje não sei seu nome. Também nem me importa, alguns metros é uma distância muito grande aqui. Eu vou ficando com fome. Bebo um copo d´água, arrumo algumas coisas, olho as horas novamente. Mais simpatia esbanjada. Coloco uma pulseira que faz uns barulhos agradáveis quando balançada, agradáveis até certo ponto, às vezes se tornam irritadiços. Fico em pé por um bom tempo, sem nada o que fazer além de observar os desatentos transeuntes, começo a brincar com a pulseira, com os círculos ondulados que fazem o tal barulho, batendo neles com a palma da mão direita, a esquerda suspensa logo acima dela, a sensação que ocorre nos meus dedos também é agradável, me distraio enquanto ouço esse som, divertido e irritadiço. Continuo olhando as pessoas passando pra lá e pra cá, quando olho por entre duas pilastras, um espaço que de onde estou aparenta ter uns três metros de distância, passando além delas reconheço um tecido claro florido, com florzinhas miúdas e distantes umas das outras, um tecido que assim de longe não me agradou, imagino que nem de perto iria me agradar, porém quem a estava usando era ele. Olhando na minha direção enquanto eu batia desleixadamente o pulso esquerdo na palma da mão direita. A pilastra de novo bloqueou nosso único contato. Parei momentaneamente imaginando o quanto aquela cena parecia patética, me observar enquanto eu ouvia o tilintar do metal. Ele continuou andando, agora sem olhar para onde eu estava, dessa vez era eu quem o observava, a camisa florida, a calça jeans. Observava até ele sumir por entre as portas automáticas da livraria, outra coisa que fazia todo dia, passar por aquelas portas que se abriam como num passe de mágica quando ele se aproximava. Depois disso eu só esperava vê-lo de novo muito mais longe do que mais cedo, pelo ângulo diagonal mais distante de onde eu estava, voltando, acho, para o resto da jornada de trabalho.13:51. À essa hora eu além de com fome já estava também com vontade de ir ao banheiro. Fiquei ali de pé durante alguns minutos, pensando mil coisas, mil e uma. Hoje parecia até que ele estava se escondendo de mim, só o via depois de reconhecer fisicamente todos os seus colegas. Tirou os óculos escuros logo quando saiu do sol, o perdi de vista por trás da pilastra, quando fui acha-lo estava escondido ao lado de um robusto colega seu. Passou e nem se deu conta de minha existência, singela. Tentei seguir seus passos pelo espelho, sumia, reaparecia, sumia, e foi embora, passou pela esquina como todos os dias, dez vezes por semana.

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